FAO prevê dois caminhos para o agronegócio brasileiro sem a hegemonia chinesa no mercado.
A busca da China por maior autossuficiência alimentar tem levado produtores e investidores a questionarem quem ocupará o posto de principal comprador do agronegócio brasileiro. A resposta, segundo a Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO), não virá de um único país, mas sim de dois grandes vetores de crescimento.
David Laborde, diretor da Divisão de Economia Agroalimentar da FAO, explicou que a expansão do consumo em mercados emergentes, especialmente na África e no Oriente Médio, e o avanço da bioeconomia global são as novas fronteiras. Essas declarações foram feitas durante um painel no Brazil Climate Solutions, destacando uma mudança significativa no cenário das exportações brasileiras.
Marcos Jank, coordenador do Insper Agro Global, relembrou que o crescimento do agronegócio brasileiro, impulsionado desde os anos 1970 por produtividade e sistemas integrados, sempre dependeu da demanda internacional, com a China como principal motor nas últimas décadas. Contudo, o cenário começa a mudar com o menor ritmo econômico chinês e sua estratégia de segurança alimentar.
O Fim de uma Era: A China e a Mudança no Comércio Global
A China, que foi fundamental para impulsionar exportações brasileiras de proteínas, açúcar, cereais e outras commodities, agora busca reduzir sua dependência de importações, especialmente de soja, como indicado em seu 15º Plano Quinquenal. Laborde ressalta que, embora o mercado chinês ainda ofereça oportunidades, seu potencial de crescimento já foi em grande parte capturado e o ritmo de expansão tende a diminuir.
As tensões geopolíticas entre EUA e China beneficiaram o Brasil, mas essa vantagem adicional dificilmente se manterá com a mesma intensidade. A possibilidade da Índia se tornar a ‘nova China’ é descartada por Laborde. O país possui um setor agrícola robusto, com mais de 500 milhões de dependentes da agricultura, o que limita a abertura comercial, apesar de já ser um importante exportador.
África e Oriente Médio: Novos Mercados em Potencial
Laborde aponta a África e o Oriente Médio como os principais vetores de crescimento da demanda por alimentos no futuro. O desafio, no entanto, reside na capacidade financeira desses países em ampliar suas importações. “A questão para a África é se haverá dinheiro suficiente para pagar por essas compras. Isso dependerá do crescimento econômico do próprio continente”, explicou o diretor da FAO.
Apesar dos desafios, a FAO defende que o comércio internacional é uma relação de ganhos mútuos, onde o crescimento de um país impulsiona seus parceiros comerciais. A expansão desses mercados, mesmo que gradual, representa uma oportunidade significativa para diversificar a pauta de exportações do agronegócio brasileiro.
A Bioeconomia: Um Novo Horizonte para o Agronegócio Brasileiro
Além da demanda por alimentos, a bioeconomia surge como um segundo pilar transformador para o agronegócio nas próximas décadas. A substituição de combustíveis fósseis por fontes renováveis demandará um aumento substancial na produção de biomassa global.
Segundo Laborde, a produção global de biomassa precisaria ser multiplicada por três ou quatro vezes para viabilizar essa transição. Isso criaria uma demanda crescente por madeira, produtos agrícolas e outras fontes renováveis, abrindo novos mercados para países produtores como o Brasil. A necessidade de produzir biomassa de forma sustentável será crucial.
Tecnologias como bioinsumos e inovações em geral serão fundamentais para tornar essa produção mais eficiente e sustentável. A criação de uma bioeconomia global representa um esforço coletivo que beneficiará produtores em diversas regiões, ao mesmo tempo em que abrirá **novas e promissoras oportunidades para o agronegócio brasileiro**, exigindo **grandes ganhos de produtividade**.

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