Brasil pode perder nota de crédito antes mesmo das eleições, avalia ASA
O Brasil corre o risco de ter sua nota de crédito rebaixada antes do previsto, mesmo antes do término das eleições de 2026. A avaliação é de Jefferson Bittencourt, head de Macroeconomia do ASA, que aponta para a deterioração da situação fiscal como principal fator de preocupação.
Embora as agências de classificação de risco geralmente evitem alterações em períodos eleitorais, não há garantia de que esperarão o fim do processo político para revisar a avaliação do país. A instabilidade fiscal, agravada por operações parafiscais, tem aumentado a vulnerabilidade brasileira.
Essa perspectiva contrasta com a expectativa de parte do mercado, que previa uma possível revisão negativa apenas após as eleições. No entanto, a análise do ASA sugere que o cenário fiscal atual e a percepção sobre a trajetória de solvência do país podem levar a agências a antecipar suas decisões, conforme informado pelo ASA.
Vulnerabilidade Fiscal no Radar das Agências de Risco
Atualmente, o Brasil ostenta a nota Ba1 da Moody’s, BB da S&P Global e BB da Fitch, todas com perspectiva estável. Nenhuma dessas classificações o coloca no cobiçado grau de investimento, selo que indica menor risco de calote. Essa nota é crucial para atrair investidores institucionais e reduzir o custo de financiamento do governo.
Jefferson Bittencourt destaca que, apesar dos pontos fortes do Brasil, como o elevado nível de reservas internacionais e a diversificação da economia, a **vulnerabilidade fiscal** continua sendo o principal entrave para uma melhora na classificação. Ele ressalta que essa vulnerabilidade aumentou ao longo de 2026, não apenas no âmbito fiscal tradicional, mas também em operações parafiscais.
As operações de crédito realizadas pelo governo, mesmo com impacto limitado no resultado primário, afetam o resultado nominal e a trajetória de endividamento. Bittencourt estima que essas operações somem entre R$ 140 bilhões e R$ 160 bilhões.
Dívida Líquida e Trajetória de Endividamento Preocupam
Outro ponto de atenção é a **deterioração da dívida líquida do setor público**, que, segundo o economista, avança em ritmo mais acelerado que a dívida bruta. A retomada de operações de crédito que geram ativos para a União, mas com baixa rentabilidade, contribui para esse cenário.
A percepção das agências de risco não se baseia apenas no resultado fiscal corrente, mas na **visão sobre a trajetória de solvência do país**. Nesse contexto, o pacote de ajuste fiscal que o governo poderá apresentar no final do ano ganha importância crucial.
Bittencourt sugere que a reação das agências pode estar vinculada a esse pacote. Um ajuste considerado tímido ou frustrante pode não ser suficiente para alterar a percepção negativa, e decisões que aumentem a pressão sobre as contas públicas podem ter um impacto ainda mais deletério na credibilidade.
Pacote de Ajuste e Riscos de Medidas Contraditórias
O conteúdo do pacote de medidas será determinante. O economista relembra o pacote anunciado no final de 2024, que, apesar das expectativas de ajuste, foi acompanhado pela desoneração do Imposto de Renda. Essa medida, segundo ele, **minou consideravelmente a credibilidade** da proposta e aumentou o ruído em torno da política fiscal.
Um risco semelhante pode se repetir caso o governo anuncie medidas de contenção de gastos e, simultaneamente, avance com pautas que elevem as despesas. Mudanças em regimes de Previdência de determinados segmentos, por exemplo, podem gerar frustração no mercado.
A experiência de 2022 também serve de alerta. Bittencourt aponta que, após a eleição daquele ano, a aprovação do piso nacional da enfermagem, com custos fiscais relevantes, demonstrou que a trajetória das contas públicas não se encerra com o anúncio de um pacote e pode ser afetada por decisões posteriores.
Timing das Agências Dependerá da Política Fiscal
O timing das agências de risco dependerá tanto do calendário eleitoral quanto da **evolução concreta da política fiscal**. Se o governo apresentar um pacote consistente e crível, a pressão por um rebaixamento da nota pode ser reduzida.
No entanto, caso ocorra uma deterioração adicional das contas públicas ou a adoção de medidas que comprometam a trajetória de solvência, uma reação antecipada das agências de risco se torna mais provável, impactando negativamente a confiança dos investidores no Brasil.

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